Global MUDA Local... Global MUDA Local

Local MUDA global... Global MUDA local

Microfones abertos. Rádios livres. Estúdio de portas abertas. Conceitos a serem discutidos. Participação da comunidade. Apropriação e utilização livre das tecnologias de comunicação. Reunião de grade. Produção de cultura. Diversidade no ar!!!

Em 1998, a Rádio Muda talvez ainda restringisse o seu alcance às casas que cercavam o campus da Unicamp e talvez pudesse ser encarada como uma experiência restrita de estudantes universitários.

Hoje, as ondas em freqüência modulada chegam mais longe. Também o exemplo de resistência que a experiência mudeira representa atinge um campo maior do que se imagina. É inegável que a participação de programadores da rádio em eventos externos e principalmente o aumento da utilização da Internet pelo coletivo que gere a Muda transformaram a imagem e ampliaram o campo de sua atuação na sociedade. A comunidade no movimento pela comunicação livre, e o movimento na comunidade.

No primeiro semestre de 2003, mais de 200 pessoas chegaram a estar envolvidas com a rádio situada na praça central do campus da Unicamp, realizando cerca de 100 programas diferentes por semana. Só essa participação ultrapassa a noção de que a rádio não tem alcance. A discussão aqui é audiência x participação: é quantidade x qualidade. É consumo x produção, passividade x atividade. É consumidor x humano.

Não se pode dizer que chega a essa consciência profunda o fator que motiva todos aqueles que carregam suas mochilas de CDs, sacolas de vinis e adentram o estúdio peculiar embaixo da caixa d’água que abastece o campus para passar uma hora ou mais falando no microfone e tocando um som. Mas se pode aferir que, mesmo inconscientemente, ligar o transmissor e falar nos microfones da Muda já traz tal discussão à tona, já consiste em uma forma de resistência, de experimentação, de algo novo. Trata-se de uma atitude que está fora dos padrões da comunicação social e pessoal, mundialmente falando.

O mesmo pode ser dito da atitude de ouvir Rádio Muda. Não é mesmo agradável escutar a rádio para os ouvintes que estão acostumados com “as mais tocadas”, comerciais, promoções e enquetes, e locutores com vozes aveludadas. Comparados aos parâmetros das rádios comerciais e mais ouvidas, os programas da Muda são bagunçados, cheios de erros técnicos, têm problemas de continuidade e não obedecem a linhas de estilo e editoriais fixas... e muitas outras coisas que desagradam...

Quando a freqüência sintonizada é a de uma rádio comercial e de grande porte, o rádio pode ficar ligado enquanto se trabalha, enquanto se estuda, enquanto se assiste TV, enquanto se lê um livro, enquanto se faz uma faxina, se cozinha... Nesse caso, o aparelhinho ligado produz apenas um sonzinho ambiente, não se presta atenção nele e, por isso, ele não é algo que exige raciocínio por parte do espectador. Pelas caixinhas ou pelos fones de ouvido, se ouve algo que não tem relação com as coisas que o ouvinte vive: não se trata de comunicação.

Porém, se o rádio estiver em 105,7 FM nas proximidades de Barão Geraldo, ou em qualquer outra rádio que seja por natureza e por princípios fora dos padrões econômicos, políticos, subjetivos e culturais dominantes, o ouvinte poderá e será obrigado a participar, a ser ativo e a raciocinar para ouvir o conteúdo produzido. Terá que ser um ouvinte fora dos padrões. Terá que se incluir na própria realidade que o cerca, livre das fantasias, sensacionalismos, “mágicas” e imposições que a informação como mercadoria traz. Ele terá que olhar para o rádio, se concentrar e usar a cabeça.

Descartando os parâmetros comerciais, políticos e econômicos que aprisionam a liberdade de comunicação, os “defeitos” que apresentam os programas da Rádio Muda são transformados em características que humanizam o conteúdo de mensagens sonoras que podem ser transmitidos por uma simples tecnologia que se chama radiodifusão. Os defeitos se transformam em características imprescindíveis para a comunicação, que é diferente do comércio de mensagens, da imposição de valores.

É, portanto, pela forma com que funciona e não apenas pelo conteúdo que veicula, que a Rádio Muda se destaca tanto entre aqueles que a ouvem pelo rádio, passando pelas proximidades da zona norte de Campinas, quanto por aqueles que descobrem a rádio por serem ativistas da tão enunciada e já banalizada “democratização dos meios de comunicação” ou por serem interessados na área das inovações em comunicação social. É por ser um laboratório de comunicação que a Muda pode ser considerada uma referência local e ao mesmo tempo global, por causa de uma atuação construída pela característica humana, não planejada e coletiva ao longo de doze anos de existência e resistência.

Observação: o mesmo que acontece com o rádio acontece e poderia acontecer com outras tecnologias como a TV, Internet...

Leiam o último Manifesto da Rádio Muda

Parcial

Interface, todas as quintas das 18h30 às 20h, na Rádio Muda, 105,7 FM

“Presença de espírito, senso crítico, calor no coração e criatividade”

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