COMO SE FAZ A RÁDIO MUDA?

COMO SE ORGANIZA A RADIO MUDA?

Definir a rádio Muda será sempre uma atitude parcial e de alcance restrito no tempo e no espaço. Ela não é registrada, não tem um estatuto e não adota uma doutrina. Ela é uma cultura organizacional que se move lentamente, como uma tradição embrionária, e que se transforma e se ramifica em múltiplos sentidos. O que tem sido perene nesta rádio é uma ética da liberdade e da solidariedade. O princípio da liberdade está no esforço para que o acesso à produção radiofônica seja o mais amplo possível, e que ela seja exercida com o mínimo de restrições. A solidariedade se materializa do coletivo da rádio, que compreende os cerca de 100 programadores da rádio, sem distinções formais de cargos e responsabilidades. E o coletivo está sempre aberto à entrada de novos participantes.

A ação voluntária e a cooperação são as forças que movem quase tudo o que se realiza na Muda. O espaço privilegiado para o debate e a deliberação é a reunião do coletivo, realizada semanalmente. Mas a vontade de pensar, de comunicar e de fazer pode estar acontecendo através de todos os espaços possíveis: nos grupos de ação que se formam em função dos variados projetos, na lista da Muda na internet, no trabalho solitário de algum programador quando está fazendo algo mais isoladamente para a rádio, etc. Pode-se até mesmo dizer que, nas práticas variadas relacionadas à Muda, até a fronteira entre programadores e não programadores é algo que não tem rigidez.

A MUDA É UMA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO?

Situada em uma das caixas d’água da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que não possui cursos de graduação em comunicação, a rádio Muda oferece um amplo acesso à possibilidade de se praticar a produção de rádio. Não é necessário possuir qualquer tipo de diploma ou qualificação prévia para entrar na rádio, e nela os conhecimentos técnicos e os estilos de produção radiofônica são partilhados direta ou indiretamente, segundo as necessidades e interesses de cada um ou do coletivo. E a ampla liberdade para o exercício da comunicação permite aos programadores uma aprendizagem que lembra as teorias construtivistas da pedagogia, pois cada programador tem a oportunidade de construir à sua maneira o conhecimento sobre produção radiofônica.

A MUDA É UMA ESCOLA PARA A SOCIEDADE?

Numa sociedade em que a mídia é monopolizada por interesses econômicos e políticos restritos, oferecendo por isso saberes, valores, políticas e artes pouco variadas e nas quais predominam setores limitados da sociedade, a Muda oferece uma programação muito diversificada e criativa. A variedade de estilos de música e locução é tão grande que se chega até mesmo a romper em alguns casos com essa distinção entre música e locução. E podemos dizer que a variedade em nossa programação supera as rádios comerciais de Campinas, mesmo se somarmos o que é produzido por todas elas para comparar com as transmissões da Muda. A organização participativa e a liberdade de expressão permitem um constante encontro com novas matérias primas intelectuais, artísticas e políticas, e a criação de novas linguagens radiofônicas.

A presença marcante de estudantes da Unicamp na rádio, e de jovens da região que compreende muitos bairros de classe média, pessoas com um acesso privilegiado a instituições acadêmicas e políticas, internet, livrarias, sebos, lojas de disco, etc, contribui em muito para a qualidade e diversidade da programação que a Muda oferece para a população. Mas também existe o esforço para integrar os jovens de periferia nessa experiência, de maneira que os movimentos hip-hop e anarcopunk têm encontrado espaço em nossa rádio. Até mesmo os internos do hospital psiquiátrico Cândido Ferreira têm um programa na Muda, onde podem se expressar e se aproximar da sociedade. Procuramos também ser espaço para músicos, bandas e poetas que não encontraram aceitação nas restritas e de gosto duvidoso instituições da indústria cultural. E qualquer pessoa que passa pelos nossos estúdios pode pedir para colocar o seu disco e pode usar o microfone para dizer o que quiser.

Nosso desapego ao lucro também contribui para a diversidade e qualidade da programação, pois não perdemos tempo com comerciais, não cobramos e não pagamos para tocar ou emitir qualquer mensagem, prevalecendo assim sempre os gostos, valores e as idéias das pessoas. A Muda é um veículo de partilha dos saberes, valores, políticas e artes.

A MUDA É UMA ESCOLA DE CIDADANIA?

Numa sociedade na qual hipertrofiou-se a hierarquia, a impessoalidade, o individualismo, e o desejo por bens materiais, a Muda é uma experiência geradora de solidariedade e liberdade. Ao exercermos a comunicação livre e a partilha cultural, nos envolvemos entre nós e com a sociedade nas múltiplas dimensões que podem assumir as mensagens radiofônicas e as experiências artísticas, intelectuais e políticas que elas integram. E ao fazermos isso sem seguir chefes ou uma doutrina específica, nos diversificamos em maneiras variadas de realizar essa experiência, assumindo as responsabilidades por nossas escolhas e amadurecendo enquanto participantes conscientes e ativos da sociedade.

A MUDA É UM MOVIMENTO SOCIAL?

Com o passar dos anos, a Muda vem cada vez mais intensamente extrapolando sua atuação coletiva para além do objetivo específico de seu próprio funcionamento. A Muda realiza oficinas, seminários e festas com variadas manifestações artísticas e políticas, e assumindo campanhas como a de combate à AIDS. E um outro objetivo tem amadurecido e ganho força: a luta pela democratização dos meios de comunicação. Muitos esforços têm sido realizados para fomentar a reflexão e debate sobre o tema dentro e fora da Muda, e para ajudar na construção de novas rádios livres e comunitárias, e até mesmo outras mídias, em Campinas e em outros lugares. Um momento marcante deste movimento foi a participação da Muda no I Fórum Social Mundial, onde instalamos equipamentos num espaço aberto para exercer a comunicação livre naquele evento, ser um dos pontos de confluência e irradiação de idéias, artes e políticas, e para mostrar a facilidade e as possibilidades de uma produção radiofônica livre e solidária.

Cérebro Aquático

Programa Plutão

Primeiro semestre de 2001

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