2001 odisseia Muda

(muda para que todos possam falar)

"Astronauta libertado

Minha vida me ultrapassa

Em qualquer rota que eu faça

Dei um grito no escuro

Sou parceiro do futuro

Na reluzente galáxia"

Mutantes

A Muda continua se alimentando das suas raízes: a prática da liberdade de comunicação e o esforço para expandir essa liberdade e a solidariedade que ela gera. Mas parece que estamos dando um salto na amplitude dessa luta: fomos ao Fórum Social Mundial, estamos ajudando a montar uma rádio comunitária para Barão Geraldo, uma radio na Moradia, uma TV livre, a rádio da Tainã, o site Rizoma, um mudeiro está ajudando rádios e ONGs na Amazônia e uma mudeira está se propondo a levar a mensagem da Muda para o Fórum 2000 em Praga. Cada vez recebemos mais solicitações de ajuda, informação, e troca de idéias e experiências. Se o PT levou 10 anos nas "bases" para depois se levantar através das urnas, se o EZLN levou 10 anos escondido na selva para então se levantar em armas e, doze dias depois, começou a expandir a sua luta através da comunicação, a Muda parece que está se levantando da caixa d’água, na multiplicação das mídias livres, após 10 anos no calor do ninho. Mas até onde vamos crescer? Até onde vai nosso fôlego? Vamos nos profissionalizar para virar uma encubadora de mídias? Vamos correr atrás do dinheiro? A Muda vai viver uma mudança profunda ou vai apenas crescer?

A Muda crescendo...

A Muda vinha crescendo e amadurecendo lentamente mas, com a ida ao Fórum Social Mundial, a energia vinda dos quatro cantos do planeta acelerou o nosso ritmo. Começamos a ter reuniões regulares até mesmo nas férias, o número aproximado de pessoas que atuam pelo Coletivo, além de fazerem os seus programas, foi passando de 15 para 30 nos três meses que se seguiram ao FSM. Em cada reunião está aparecendo alguém com uma proposta de ação nova, e se encarregando dela.

A imagem da Muda mudou: os programas novos já estão chegando bastante elaborados, o que significa que a Muda já tem a imagem de ser um espaço de criação e não de apenas "ir colocar o próprio som". Resultado de anos de dedicação e aprendizagem para uma programação criativa. E chegamos a isso sem precisar de qualquer forma de seleção de programas novos ou direcionamento temático. E estão entrando pessoas que já chegam por acreditar que a Muda é uma luta à qual querem se somar.

A grande sensibilidade para a importância da Muda que encontramos no Fórum Social Mundial, a presença em nossas reuniões recentes da subprefeita e um deputado federal pedindo ajuda e oferecendo apoio para a criação de uma rádio comunitária para Barão Geraldo, do cineasta Renato Tapajós, que pretende escrever um livro infanto-juvenil onde o personagem principal será um mudeiro, e o artigo que a Muda publicou na Caros Amigos são mais exemplos de novos contatos que estão enriquecendo e fortalecendo a nossa experiência, e trazendo também novas dúvidas.

Ainda não sabemos quando essa aceleração irá parar, quando vamos nos estabilizar ou refluir. Estamos dando um salto no escuro, e cada esforço a mais de memória, reflexão, crítica, comunicação, criação e ação irá fazer muita diferença no alcance desse salto.

A Muda se auto-afirmando...

A Muda está deslanchando, e inflamando a multiplicidade de esperanças e expectativas em relação ao que ela é e ao que ela pode vir a ser. O debate sobre isso vai pipocando por aí e ninguém sabe muito bem a quantas anda. Umas parcialidades acham que devemos fugir como o diabo da cruz da tentação de seguir modelos de "organização" ou "mobilização" pré-estabelecidos. Não imitemos o PT, nem as ONGs, nem o MST, nem o EZLN, simplesmente não imitemos os outros! Há algo de inteiramente nosso, que vem amadurecendo no ventre cavernoso da caixa d’água, é isso que deve crescer, sem atalhos! Em nossas práticas e reflexões parece até que já estamos indo além do conceito de organização. O que somos? O que queremos ser? Vamos crescer através da reprodução das estruturas ou subvertendo as relações de poder? A melhor maneira de amadurecermos uma personalidade própria é cultivando a nossa memória, e multiplicando os nossos contatos, procurando ensinar e aprender com muitos, sem nos deslumbrarmos por nenhum exemplo de ação em particular.

... evitando a burrocratização...

Se em algum momento os mudeiros tivessem definido claramente quem são os que, além de fazer programas, atuam também pelo coletivo, teríamos passado de uma participação de 15, para cerca de 30 participantes? Ou esse tipo de formalização teria barrado a identificação de mais gente com a atuação coletiva? Temos que manter nossos pés no solo úmido e sujo, não esquecer nossas raízes, lembrar que antes de mais nada o que nos liga é a música, o grito nos microfones da Muda numa noite escura, e nosso solo úmido são os 10 anos de ação dentro da caixa d’água. Quem apenas faz um programa já faz o mais importante na rádio Muda e não deixa ela parar. Só quem faz um programa não esquece que é o tesão da comunicação que nos leva a atuar pelas coisas mais básicas que são a manutenção e as melhoras técnicas, e depois pelas coisas que vão além dessas. Esse tesão foi e continuará a ser sempre a fonte da juventude da Muda.

Mas estamos escolhendo sair da caixa d’água cada vez mais... que as parcialidades que fazem isso pelo coletivo não achem jamais que são mais importantes do que os que continuam apenas dentro dela! Pelo contrário, a multiplicação de formas de ação deve ser mais um estímulo à participação criativa no coletivo, dentro e fora da caixa d’água, pelo prazer da liberdade e da solidariedade entre nós e com a sociedade. Quando um tipo de escolha particular, tal como a atuação pelo coletivo, começa a se tornar critério de seleção de uma elite, a coerção começa a nascer, e a liberdade, a solidariedade e o desejo começam a morrer.

A capacidade criativa, participativa e comunicativa que vem amadurecendo e se ampliando na Muda seria engessada por tendências de burocratização e criação de regras formalizadas. O movimento estudantil é o melhor exemplo de que o ideal da organização e da institucionalização não oferece tantas vantagens assim: até hoje não conseguiu ter uma força própria e livrar-se da instrumentalização por parte de partidos hierárquicos, que reproduzem uma cultura política autoritária, com todo tipo de restrições à diversidade e à comunicação. Como é que estamos conseguindo ter reuniões dinâmicas e produtivas com até mais de 30 pessoas sem precisarmos de um secretário que anota os nomes dos que vão falar, que controle o tempo de exposição e coisas desse gênero? Isso acontece pela paixão que está crescendo, pelos 10 anos de amadurecimento sem mudanças bruscas de geração, pela circulação das memórias, das críticas, das criações e das ações por todos os espaços possíveis além das reuniões, e pelo amadurecimento contínuo de uma ética que busca ser a ética onde cabem muitos mu(n)dos, uma ética em disputa permanente, a ética Muda, para que todos possam falar!

Se alguém quiser montar uma empresa de comunicação, ou de encubação de mídias alternativas, ou quiser profissionalizar suas atividades de transformação por um mundo melhor, que deixe então a Muda para as novas gerações, ou faça isso paralelamente, pois o ninho tem que continuar quente para que as novas gerações levem adiante essa experiência que nos ultrapassa em qualquer coisa que agente faça!

Vamos começar a ter representantes?

A participação direta sempre deu a tônica na Muda. Enquanto as atividades não extrapolavam muito a caixa d’água, vinha prevalecendo o princípio de que ninguém poderia sair por aí falando ou fazendo coisas em nome da Muda, pois a Muda é muito mais que uma ou algumas parcialidades. Mas se o coletivo da Muda começa a se ver como mais que uma rádio, como um movimento de multiplicação de mídias alternativas, e o lugar de comunicação da Muda começa a ganhar cada vez maior mobilidade, uma Muda que também é mambembe, precisamos refinar uma ética para as ações de representantes do coletivo, representantes mu(n)dos para que todos possam falar!

Que a representação aconteça por atividades específicas e transitórias, e seja aprovada na reunião do coletivo. Que o representante ou grupo tenha o compromisso ético de manter o coletivo informado sobre o curso da atividade, ficando aberto a receber críticas, opiniões e participações. E que compartilhe o que puder aprender sobre as pessoas, grupos e realidades com as quais tiver contato ao representar a Muda. Quando houver a possibilidade de se obter recursos ou doações para a Muda, que isso não se sobreponha ao objetivo maior da comunicação. É na alma capitalista que o dinheiro é a coisa mais importante. Que o objetivo maior na representação seja ensinar com sinceridade sobre a Muda, aprender sobre outras experiências, descobrir afinidades e divergências, e possibilidades de ajudarmos ou sermos ajudados.

Por que permanecer no plano da ética?

Não é certo dizer que na Muda não há regras. Sempre houve regras na Muda, mas são regras transmitidas oralmente. Nunca houve um estatuto que cristalizasse uma fórmula fixa de articulação e ação, e que alguém pudesse levantar e dizer: aqui está, eu tenho a razão. É por isso que se pode dizer que a muda não tem lei, e permanece no plano da ética. A vantagem de se continuar assim é que as regras podem estar continuamente sendo reinterpretadas segundo a consciência de cada um e da memória coletiva, e cada passo controverso leva ao aumento da comunicação entre os mudeiros. É um caminho difícil, que obriga à aprendizagem permanente das maneiras de conviverem os mu(n)dos e de articulações e ações elaboradas, que se adaptam às circunstâncias e às pessoas que estão atuando no coletivo. Tem sido o caminho mais fecundo.

costura de pensamentos e exemplos de algumas parcialidades

Cérebro Aquático - Programa Plutão - Primeiro semestre de 2001

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