A Muda não é geometrica

A Muda não é horizontal, ela simplesmente não é geométrica!

É um senso comum a idéia de que organização é sinônimo de força e de eficácia. Isso nos coloca diante de um mistério. De onde vem a força da Muda? Das iniciativas individuais e dos grupos improvisados? Sim. Das conversas paralelas nas reuniões ou fora delas? Sim. De acontecimentos inesperados? Sim. Da produção radiofônica feita de improvisos e dos planos alterados pelo acaso? Sim. Do Gerico? Sim.

A fé na razão produziu o ideal da organização, a articulação de pessoas num plano claro de ação, deliberado com regras claras, num processo inteiramente inteligível. Perfeito para ser controlado por uma ou algumas mentes racionais, prontos a distribuir tarefas e a impor a disciplina. Excelente para por em movimento os ignorantes, os menos racionais ou os alienados. Ótimo para impor um movimento definido por poucos cérebros humanos.

... e no entanto a Muda caminha... Para compreender isso é preciso uma outra sensibilidade. A maneira como se articulam os mudeiros não se reduz a nenhuma imagem geométrica, e ninguém é capaz de conceber as suas entranhas. Cada mudeiro experimenta apenas fragmentos desse processo, e as coisas acontecem, coisas além do que cada mudeiro poderia conceber sozinho. O movimento da Muda tem algo de irracional, pois como os que fazem e pensam os pedaços desse movimento são bem mais do que um pequeno grupo de chefes, o processo escapa à possibilidade de uma percepção clara por parte de cada pessoa e grupo que existe dentro dele.

Talvez vários mudeiros não participem mais do que já fazem por causa dessa falta de clareza racional, de disciplina e de comando do processo. Outros não participam tanto simplesmente porque seguem outros desejos. Mas muitos estão contagiados de várias maneiras por essa melodia com tantos timbres, harmonias esperadas e inesperadas, e dissonâncias, que é a Muda. Melodia que se faz da fé no outro, e que vibra nas articulações herméticas e imprevisíveis. A obscuridade desse processo faz parecer que a Muda é pura espontaneidade. Mas com uma nova sensibilidade é possível notar que a espontaneidade é apenas um dos ingredientes das teias complexas de iniciativas e articulações, muitas vezes bastante elaboradas, e que brotam sob várias formas e desaparecem.

A Muda não é horizontal, ela simplesmente não é geométrica. E por isso há tanto espaço para fluir a inteligência e a iniciativa dos que desejam entregar um pouco de seus corpos e mentes nessa experiência coletiva!

Cérebro Aquático

Programa Plutão

Primeiro semestre de 2001

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