A parceria entre Rádio Muda e o Centro de Mídia Independente no FSM II

Rádio Muda e Centro de Mídia Independente

no Acampamento da Juventude:

uma parceria

A Rádio Muda de Campinas e o Centro de Mídia

Independente consolidam neste II Fórum Social Mundial

o antigo desejo de formarem uma parceria

Embora algum tempo já tenha se passado, não há como deixar de falar na parceria da Rádio Muda com o Centro de Mídia Independente no Acampamento da Juventude, que, até agora, recorda-nos lembranças diversas. Reconhecendo-se como formas muito parecidas de lutas contra o monopólio da informação e dos meios de comunicação, há já algum tempo, o CMI e a Rádio Muda têm o interesse de convergir suas ações para um foco comum. Embora alguns programadores da Rádio Muda sejam voluntários do Centro de Mídia Independente e mantenham contato com seu coletivo organizador, da mesma forma que voluntários do CMI são ouvintes e contribuintes com o projeto da Rádio Muda, a fusão de ambos os projetos, em sua totalidade, era ainda inédita.

A idéia inicial de conectar o sinal de rádio da Muda às rádios dos sites do CMI-Brasil, do CMI-NY, do CMI-Itália e do CMI de alguns outros países da Europa acabou por se transformar em mero detalhe diante da interação de ambos os coletivos. Confinados numa pequena sala que se localizava no balcão da comunicação no Acampamento, lugar em que se encontravam também outras rádios, como a Poste e a Social Comunitária, ficaram os programadores da Rádio Muda e os voluntários do CMI, cruzando-se incessantes em trabalho. Entretanto, cruzaram-se mesmo quando perceberam que seus projetos também se cruzavam, tal como intuíram certa vez. Perceberam que, embora através de outros meios (ondas eletromagnéticas e sinais digitais), ambos estavam conectados num mesmo objetivo: dar voz aos que não a possuem. Combater a mídia empresarial e endossar o coro dos excluídos era o que estavam tentando explicitar ali, naquela pequena sala e naquele curto espaço de tempo, aos interessados em descobrir meios alternativos de comunicação e expressão.

E quando perceberam serem tão mais próximos do que imaginaram, logo se viram trocando de papel: certa noite, por exemplo, quando não havia programadores da Rádio Muda para dar continuidade à programação, perguntei a algumas pessoas do CMI se eram a fim de fazer programa. Ao receber resposta positiva, fui dar uma volta, ver as novidades que se espalhavam por sobre aquela terra vermelha e seca do acampamento (danças, malabáres, artesanato, enfim) e, quando voltei, deparei-me com um aglomerado de gente ao redor do nosso estúdio: os agora programadores da Rádio Muda, aqueles voluntários do CMI que haviam timidamente respondido que fariam programa enquanto eu fosse caminhar pelo acampamento, agora cantavam e dançavam ao som da música do Jáspion (!!!), aquele super-herói japonês que - os mais novos devem se recordar – fantasiavam nossas manhãs pueris... Um dos meninos me disse: "Meu! Eu queria ter uma rádio livre na minha casa!!", e a partir desse momento, às vezes, tínhamos que pedir licença a eles para falarmos as necessidades prioritárias (e silenciantes) no microfone. Mas já não havia qualquer diferença, voluntários do CMI também eram programadores da rádio Muda, colocavam músicas e falavam nos microfones naturalmente.

Essa interação levou, para tanto, uma parcela maior de programadores da rádio Muda a comparecer às reuniões dos Centros de Mídia Independente, que costumavam acontecer ali mesmo, atrás do balcão da comunicação. Isso fez com que soasse uma simpatia geral pelo projeto, pelo know-how em técnica digital e pela capacidade de trabalho em grupo dos Centros de Mídia Independente no coletivo da Rádio Muda - que se antes eram apenas do interesse de alguns, agora passavam a fazer parte das inquietações da maioria dos "mudeiros" ali presentes. Alguns mudeiros, inclusive, inspirados pela convivência com os voluntários do CMI, passaram a publicar com maior freqüência artigos no site. Não fosse essa parceria, a exemplo disso, este artigo jamais faria parte das minhas idéias de publicação (este artigo pode ser encontrado no site do CMI, www.midiaindependente.org).

No entanto, contratempos e novidades nem tão divertidas também fizeram parte da prática dessa experiência inédita. Ao mesmo tempo que o CMI pôde contar com diversos problemas de ordem técnica – o que tardou a sua conexão com o nosso sinal de rádio -, a Rádio Muda também pôde se encontrar num dilema quanto à proposta das rádios livres.

Como os que lá estavam presentes puderam saber, havia três rádios eletromagnéticas no acampamento: a Rádio Poste, a Rádio Muda (105,7 FM) e a Rádio Social Mundial Comunitária (88,1 FM). A Rádio Poste, que tinha como função principal suprir as necessidades organizativas do acampamento, possuía prioridade sobre as caixas de som que lá dentro se encontravam; enquanto que a Rádio Muda e a Rádio Social Mundial Comunitária entravam muito raramente no som que pairava pelo acampamento – som que quase sempre, aliás, congestionava nossos ouvidos. Na verdade, parece-me que a organização do Acampamento da Juventude - ou Cidade Carlo Giuliani... -, propriamente, tinha como projeto e intenção uma rádio que funcionasse como uma espécie de balcão de informações, transmitindo recados e declarações para todo o acampamento numa poluição irrefutável de grande cidade; e uma que trabalhasse nas ondas eletromagnéticas de Porto Alegre. Essa rádio era a Social Comunitária, conclamada pelos organizadores do Acampamento apenas para funcionar durante a segunda edição do Fórum Social Mundial, mas que também entrava na programação do/para o acampamento.

Isso significou para nós, da rádio Muda, uma novidade extremamente difícil na prática de rádio livre, pois, quando entrávamos na programação do Acampamento, éramos obrigados a nos deparar com uma função até então desconhecida para nós: a função de balconistas. As pessoas, confundindo a Muda com a Rádio Poste e transformados em dependentes daquele mecanismo de recados elaborado pela Poste, queriam, incessantemente transmitir recados das mais diversas ordens, passando até por recados do tipo: "Ô Zé, traz a minha faca, porque eu preciso cortar as melancias", ou ainda: "Quem tiver um baseadinho aí traz p'ra gente, que a gente tá a fim de fumar um, falou?", como disseram alguns meninos no nosso microfone. Então surgiu a pergunta: o que é dar voz aos que não a possuem, sem que haja essa dependência das pessoas para com a rádio? Por que fazer rádio livre, se somos obrigados a ser balconistas? Ou ainda: será que devemos transmitir para o acampamento?

Além disso, por diversas vezes, fomos xingados pelos "ecologistas" do Acampamento, que, ou nos confundiam com a Rádio Poste, ou nos culpavam pela poluição sonora – indubitavelmente insuportável –; ou ainda pelos reacionários ou "guardiões de partidos" que não estavam e não estão nem um pouco interessados em ouvir a voz da diversidade, em ouvir a voz de todos, quando em debates como o que surgiu em função da prisão do grupo de punks que se dirigia à passeata contra a Alca, em que partidários e apartidários entreviram-se numa discussão infinda sobre de quem era a culpa. Lembrando que, não fosse a Rádio Muda, muitas pessoas que ali estavam incessantes em opinar e informar o acampamento sobre a violência policial estariam calados, pois a Rádio Poste do Acampamento da Juventude não se recalcou em censurar aqueles que possuíam discursos contrários ao da esquerda tradicional.

Em função dessas novidades e imprevistos, a parceria da Rádio Muda com o Centro de Mídia Independente teve dificuldades em ser aprofundada. Mas ainda assim, as lembranças e a experiência decerto já façam parte do nosso repertório de trabalho, de modo que essa parceria já tem planos para ser, definitivamente, consolidada. Pois foi graças a essa parceria que nossas forças se uniram para que, mesmo com milhares de contratempos, conseguíssemos suportar os tropeços e as dificuldades da prática improvisada dos meios autônomos e democráticos de expressão. Valeu CMI!

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