A Muda não é a-nônima, ela é a-formal

A Rádio Muda está no ar há aproximadamente 30 anos. Começou na década de oitenta na casa de estudantes de engenharia que montaram um transmissor de baixa potência.  Passou pela ocupação TABA*, já se instalou dentro do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e foi por fim transferida para o local atual- base da caixa d’água da Praça do Ciclo Básico.
A história da Muda é transmitida oralmente de programador para programador. Estórias expressadas de forma subjetiva, compondo uma história maior, inapreensível na sua totalidade, assim como qualquer realidade complexa. Não se sabe ao certo quais estudantes de engenharia eram esses que montaram o transmissor, nem como se davam as transmissões na Taba, nem exatamente como se deu a confusão do roubo do transmissor nas eleições do DCE. Cada pessoa, uma versão, um novo dado, outra visão do mesmo contexto. A Muda se dá assim, através de relações informais e subjetivas. Através do coloquial, da tecnologia artesanal. Há um coletivo- um grupo de pessoas que tomam as decisões referentes às questões da rádio- que gere a Muda. A estrutura da Muda se altera em função direta da composição desse coletivo em cada momento, semestre, ano. Ou seja, a Muda de agora não é a mesma de cinco anos atrás. E esta não é a mesma de dez anos atrás. Quem dirá de trinta anos atrás. Ainda que diferente, pois subjetividades diferentes a compõe nesses diferentes momentos, permanece sua estrutura maleável e alguns princípios norteadores. O que fica é a prática do questionamento e a prática da liberdade de comunicação através da rádio transmissão, através de uma organização propositiva e horizontal que se altera a cada novo ingresso de novos programadores.
Nesses anos todos, centenas de pessoas passaram pelos estúdios da rádio. Nos envolvemos com inúmeras outras rádios pelo Brasil e mundo, além de movimentos sociais de outras naturezas, participando de encontros, promovendo debates e oficinas de rádio por vários estados, ajudando inclusive a criar outras rádios. Apenas para citar alguns exemplos, participamos de várias edições do Fórum Social Mundial, principalmente as primeiras edições em Porto Alegre (2001, 2002, 2003), instalando o estúdio de rádio em conjunto com outros grupos e movimentos no Acampamento da Juventude e realizando transmissões de lá para Campinas; já fomos sede para inúmeras apresentações musicais de grupos pequenos da cidade, muitas vezes com apresentações dentro do pequeno estúdio, transmitindo ao vivo dentro da grade de programação; fizemos parcerias com o Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, que trazia os internos para realizar um programa semanal na Muda, levando inclusive à criação de sua própria rádio Maluco Beleza atualmente; demos inúmeras oficinas em encontros de comunicação pela Brasil afora e também dentro da Unicamp; fomos objetos de estudos de vários projetos de graduação; para não falar dos próprios encontros de rádio livre onde estivemos presente e ajudamos a organizar em conjunto com o Rizoma de Rádios Livres.
Impossível falar sobre todos os programas e abarcar sua diversidade. Programas musicais, de entrevistas, de caráter jornalístico ou então artístico, de narração de futebol, de trilha de cinema, de debates. Inúmeros convidados já comparecem aos estúdios da Muda, sejam artistas de bandas locais, professores para debater temas da atualidade, integrantes de movimentos sociais para refletir sobre algum tema proposto. Muito já se debateu na Muda, não apenas sobre o tema da comunicação, mas sobre uma infinidade de temas. Já tivemos telefone e participação do ouvinte ao vivo, já fizemos retransmissão de rádios de outros estados ou países, já debatemos no ar com pessoas de outras cidades.
A Muda é de certa forma, uma escola para os programadores que por aqui passam. Não apenas se aprofunda a reflexão sobre a temática da comunicação, no que se refere à situação dos meios de comunicação no Brasil e no mundo, como também a experiência de se organizar em um movimento social. A Muda é um laboratório. Daqui, saíram muitas pessoas que hoje trabalham e pesquisam na área de comunicação, tecnologia, legislação, arte. Pessoas que estão aí contribuindo para a produção de conhecimento do país.
Ou seja, não é pouco. E não somos poucos. Somos muitas rádios livres, e não clandestinas, pelo Brasil e mundo afora. Não nos encaixamos na legislação para rádios comunitárias, pois esta é inadequada e mal escrita. Questionamos, na prática, a absurda e muitas vezes ilegal, concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos, muitos desses políticos. Ocupamos o espectro, propomos a auto-organização, nos organizamos através da legitimidade e não da falha legalidade.
A Rádio Muda se organiza a partir de relações informais, o que significa que somos diferentes da formalidade instituída nas instituições estatais, empresariais, burocráticas. Essa formalidade pressupõe diretores, gerentes e supervisores, que supervisionam, administram e dão ordens a seus subordinados, funcionários, subgerentes e subdiretores. A formalidade reconhece o espaço para domina-lo, organiza relações para restringi-las a formas específicas, define planos e metas a serem cumpridas a curto, médio e longo prazo, com direito a bônus se trabalhar direitinho. A formalidade reconhece a partir do nome individual que consta no seu RG. Ela precisa de números como CPF, carteira de motorista, INSS e PIS. A formalidade sabe quando você nasceu, em que você trabalha, que ano você se formou no ensino médio, qual o nome completo da sua mãe, qual o telefone para emergência. Ela precisa do seu currículo.
A informalidade existe a partir de outros parâmetros. Seu território é mais maleável, a estrutura se dá através de ações cotidianas que valorizam a reinvenção de sua própria estrutura. A informalidade reconhece o espaço a partir de suas ações, e as relações a partir da conexão de idéias e práticas. O seu nome pode ser seu apelido e as pessoas se reconhecem através do seu histórico, de que atitudes você toma perante a vida, como você trata o próximo, qual a prática de duas idéias. Presente, passado e futuro não são necessariamente números exatos numa linha reta, mas propagações de experiências.
A formalidade tem dificuldade em dialogar com a informalidade, pois não consegue rastreá-la. Falta precisão e nitidez. Elas funcionam de formas distintas. A formalidade precisa de interlocutores específicos com os quais dialogar. Ela não consegue lidar com um coletivo horizontal que não têm representantes e que ainda por cima, não tem consenso sobre tudo. A formalidade precisa de conclusões e de posições finais. A informalidade aponta direções, muitas vezes de forma imprecisa. No caso da situação da legislação para os meios de comunicação no Brasil, que não reconhece a legitimidade dos meios comunitários e livres, a não ser que estejam encaixados na sua lei equívoca, a formalidade precisa de nomes para punir. Modos distintos de organização.
A Rádio Muda não é anônima. No entanto, evitamos fornecer nossos nomes pessoais para a grande mídia, pois o Estado procura pessoas para identificar e punir quem discorda de suas regulamentações. A polícia perde tempo fechando rádios e destruindo equipamentos comunitários de comunicação. A comunicação não precisa de nomes, mas, sim, de ações e relações.
Nos últimos 30 anos a Muda vem se relacionando com a comunidade de dentro e fora do campus universitário. São estudantes, alguns professores e funcionários, e moradores do bairro, que realizam programas de rádio. Comunicadores e não jornalistas profissionais.
Para se comunicar não é preciso um diploma. Para se comunicar não é preciso um nome. Para se comunicar, é preciso se comunicar. E a comunicação é, por definição, imprecisa, subjetiva e inconclusiva, pois esta se dá através da comum-ação. Tudo que envolve mais de um elemento origina uma relação, algo que se compartilha, algo em comum. Relações envolvem seres complexos e diversos. Impossível sermos precisos, termos apenas um nome, ou mesmo um nome. Somos in-nomeáveis, pois não precisamos nos definir. Lide com isso. Precisamos reinventar mais e novas formas de se relacionar. A realidade não precisa de mais nomes, de novas marcas e celebridades para admirar ou condenar. A realidade precisa de problematização da realidade.
Problematize-se. Sim, é difícil.
Assina este texto, a programadora Prímula. Mais uma muda de planta dentre essas infinitas outras mudas. out/2013
 
*ocupação de salas de aula com o intuito de pressionar a construção da moradia estudantil, conquistando a atual Moradia fora do campus, existente até hoje.

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