matéria do jornal "o quique", sobre a rádio muda (2003)

1. Mudança.
A sociedade do espetáculo é a forma que escolhe o seu próprio conteúdo técnico, com uma comunicação essencialmente unilateral que permite o acumular, nas mãos da administração do sistema existente, os meios que permitem prosseguir esta administração determinada. Isso implica em termos liberdade de imprensa sem diversidade de pontos de vista, com liberdade de produção de conteúdo subordinada a uma estrutura de mídia. Isso limita a capacidade de emissão aos grupos minoritários que detêm o poder político e econômico, mantendo as maiorias sociais como massas meramente receptoras de mensagens. Por isso exigimos a reforma agrária do ar.

2. Substituição de animais cansados por outros folgados.
A maneira como se articulam os mudeiros não se reduz a nenhuma imagem geométrica, é antes algo como um rede intrincada. Cada mudeiro experimenta fragmentos do processo, mas os fragmentos, ao mesmo tempo que compõe o processo, tornam-se processos compostos dos fragmentos que são o processo que eles compõem. Assim, cada mudeiro é suserano e vassalo num mecanismo elástico em que, em nenhum momento, o que ele é torna-se claro e mesquinho. A anarquia é possível porque dispõe- se de tempo para tornar não hierárquica essa relação de afinidade.

3. Renovação do pelo, pena ou pele de certos animais.
O artigo 5º da Constituição Federal de 1988. A apropriação popular dos meios de comunicação responde aos direitos de liberdade de expressão, de acesso às informações, à educação e à cidadania. A Rádio Muda 105.7 não é uma rádio pirata. Nos não estamos atrás do ouro. Não temos fins lucrativos. Não temos o rabo preso com a indústria fonográfica, nem com nenhum político ou qualquer igreja. Aqui participam todos aqueles que querem de bom coração. Faça você mesmo.

4. Privado(a) do uso da palavra por defeito orgânico ou inibição psíquica.
Foram fechadas rádios, em São Paulo, pela ANATEL. Para tal, a Agência mobiliza a Polícia Federal; por vezes entram agentes armados; não são escassas as ameaças; logo fazem a apreensão dos equipamentos (mesmo sem especificações precisas e licenças próprias).

5. Calada, silenciosa.
Rádio livre não derruba avião. Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão (ABERT), faz campanha sistemática alertando a população de que uma emissora clandestina de baixa potência pode provocar a queda de aviões. Na verdade uma emissora - comunitária, comercial ou clandestina – só interfere numa aeronave quando: está instalada nas proximidades de um aeroporto; opera nos extremos da faixa (perto de 88 ou de 108 MHz); opera com equipamentos não ajustados e/ou atua com potência elevada. Assim, são inúmeros os casos em que emissoras filiadas à própria ABERT causaram interferências, mas quanto às comunitárias...

6. Que não se expressa por palavras.
A política institucional é espetáculo pra boi dormir. Espetáculos constituem a real política. Criam e mantém os poderes que acorrentam. Vivemos numa simulacrocracia, enclausurados no terror de um cotidiano estável, confortável e quem sabe até prazeroso. São reféns da infinita hipocrisia que lhes devora por dentro. É o mau sonho que conspira contra a vida. Acordar não é fácil. Sair da jaula mais eficaz já inventada pelo homem para o próprio homem: o indivíduo. Não se trata do corpo, desejo, sensibilidade e percepção únicos em cada um, mas justamente a negação da sua autonomia. O indivíduo é o cidadão numerável, cadastrável, tem uma profissão, bens materiais, e também direitos e deveres previstos.

7. Planta tirada do viveiro para plantação definitiva.
Não devemos admitir uma legislação que estabelece um só canal de freqüência para todas as rádios do país. Não devemos admitir a decisão governamental, insuflada pela Abert, de locar todas as rádios comunitárias no canal 200, fora do dial. Não devemos admitir a restrição do alcance de 1 Km para as rádios comunitárias e, resumindo, a lei 9.612/98 e o Decreto 2615/98. Quando há um conflito entre a lei e a justiça é nosso dever desobedecer. Devemos ameaçar a hegemonia e o oligopólio de grandes empresas de comunicação. Devemos nos indignar com a cobertura da ANATEL pelo governo. Viemos para dizer que a violência não calará nosso direito inalienável à livre expressão e à livre comunicação.

Add new comment